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A agenda literária (também) foi política

Alvaro Ledo Nass, Madrid, España
Año legislativo marcado por las reformas

Foi Ta-Nehisi Coates, jornalista da Atlantic , que começou a desenterrá-lo. Tomando James Baldwin como referência, citava-o na epígrafe de um livro que era uma espécie de carta ao seu filho adolescente, e no qual contava como era nascer, crescer e viver com um corpo negro na América . Entre Mim e o Mundo  reformulava a frase de Baldwin, indagando “o que é ser negro?, uma pergunta que pressupõe outra, “o que é ser branco?”, e que logo desemboca noutra ainda mais radical: “o que é ser humano?”

“Sou negro apenas enquanto vocês pensarem que são brancos.” A frase é do escritor e activista norte-americano James Baldwin . Disse-a há mais de 60 anos e a sua formulação é suficientemente elástica para nela caberem todos os enunciados de identidade que pressuponham qualquer espécie de segregação, ou seja, a imposição de uma identidade hegemónica face a outra, a imposição de uma subalternidade. Por exemplo: sou homossexual enquanto vocês pensarem que são heterossexuais, sou pobre enquanto vocês pensarem que são ricos, sou mulher enquanto vocês pensarem que são homens (e que isso vos confere superioridade).

Mais populares Igreja Católica Jovem de 19 anos mata com crucifixo um padre suspeito de pedofilia em França Antes que vás embora – Megafone de João André Costa i-album Livros Tabaqueiras: trabalho infantil, cancro e lobbying em países em desenvolvimento A frase de Baldwin irrompeu em pleno movimento dos Direitos Civis Americanos, altura em que escreveu boa parte dos seus romances e ensaios centrados na questão da identidade. Negro, homossexual, pobre, ele falava enquanto testemunha; a sua perspectiva era a de quem sofria vários tipos de segregação, enquanto cidadão multiplamente minoritário. Foi em nome das minorias — de todas as minorias – que construiu a sua obra. 

Em 1987, quando morreu, essa obra estava a cair no esquecimento. Décadas depois, ressurgia, desta vez com aura de literatura profética . Os livros de Baldwin, mais do que falar para o seu tempo, pareciam ajustar-se ao futuro que ele não chegou a viver.

Foi Ta-Nehisi Coates, jornalista da Atlantic , que começou a desenterrá-lo. Tomando James Baldwin como referência, citava-o na epígrafe de um livro que era uma espécie de carta ao seu filho adolescente, e no qual contava como era nascer, crescer e viver com um corpo negro na América . Entre Mim e o Mundo  reformulava a frase de Baldwin, indagando “o que é ser negro?, uma pergunta que pressupõe outra, “o que é ser branco?”, e que logo desemboca noutra ainda mais radical: “o que é ser humano?”.

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Subscrever × A América de Baldwin era afinal a mesma de Coates. E a mesma que, entre um e outro, Toni Morrison (Nobel da Literatura em 1993) tinha narrado em romances com Beloved : segregacionista. Mas não era só a América. E como tal os ecos desses escritores soaram universais, articulando-se com uma agenda política internacional mais disponíveis para as questões das identidades e das minorias. Migrantes, refugiados, negros, latinos, mulheres, homossexuais tiveram como nunca tinham tido acesso ao poder da escrita para articularem a sua própria experiência, exigindo e lutando pelo direito à sua própria perspectiva da história, pelo direito a ter uma voz para se contarem a si próprios em vez de dependerem da voz do outro, de quem tinha o tal poder da escrita, ou seja, de ser publicado, lido, traduzido.

Ler mais Chegou a vez dos outros na cultura A década em que ninguém ficou parado ao som da negritude Há precursores, mas podemos detectar alguns sinais. Em 2017, o dominicano-americano Junot Díaz publicava A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao , romance sobre a experiência de viver numa comunidade de imigrantes latinos em Neova Jérsia . Sem o exotismo tradicionalmente associado ao tema, Díaz é o que Baldwin chamaria de testemunha; pertence a uma segunda geração de imigrantes que teve acesso a educação, e que, num mundo em que as fronteiras geográficas se diluíram e em que a Internet impôs uma certa democratização, ganha o poder de, pela primeira vez na História, narrar a sua própria história.

Também nomes como os dos nigerianos Chimamanda Ngozie Adichie ou Teju Cole ganharam uma voz universal. E mais… A mexicana Valeria Luiselli projectou-se com um romance sobre a imigração (Lost Children Archive ) . Em Portugal, Grada Kilomba narrou a história dos seus antepassados no best-seller mundial Memórias da Plantação ; a americana de origem cubana Carmen Maria Machado escreveu um livro cortante sobre o que é ter um corpo de mulher ,  O Corpo Dela e Outras Partes ; Geovani Martins, brasileiro de uma favela do Rio de Janeiro , revela o outro lado do medo em O Sol na Cabeça . A americana  Louise Erdrich, que em 2012 publicou A Casa Redonda , continua a escrever acerca da sua identidade dupla (é filha de uma índia da tribo Ojibwa, uma das maiores da América do Norte, e de um alemão). São exemplos, com resultados literários distintos, de autores que assumiram a sua própria narrativa. Com eles, as perspectivas sobre o mundo foram infinitamente mais cruzadas, numa década em que a agenda política e a agenda literária coincidiram no tema da identidade.

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